Cemitério da Consolação: Um Museu a céu aberto

Localizado em uma área nobre da Cidade de São Paulo, o Cemitério da Consolação é um grande museu a céu aberto. Por suas ruas e quadras estão espalhadas não somente algumas das figuras mais importantes e destacadas da história brasileira, mas também estão expostas, nos túmulos, algumas das mais belas e significativas obras dos mais famosos e variados escultores do país. A Prefeitura do Município de São Paulo organizou há alguns anos atrás uma pequena cartilha dedicada aos turistas e curiosos que queiram passear pelo cemitério e apreciar um pouco da história e da arte que ali está. Entretanto, seria impossível fazer um guia pequeno e citar todas as pessoas realmente interessantes que jazem na Consolação. Pensando nisso, o São Paulo Antiga percorreu o cemitério e foi atrás de outras personalidades importantes ou curiosas para a nossa cidade e que não constam no guia oficial. A busca resultou em quase uma centena de figuras e as primeiras 12 estão aqui. Vamos a elas!

 

Afonso Arinos de Melo Franco (Membro da Academia Brasileira das Letras. Rua 12/ Terreno 19 e 20)

Afonso Arinos de Melo Franco, ou apenas Afonso Arinos, foi um grande jurista, jornalista e escritor brasileiro. Autor de inúmeras obras literárias foi levado à Academia Brasileira de Letras aonde veio a ocupar a cadeira de número 40. Além de suas contribuições para a cultura, teve atividades importantes dedicadas à vida jurídica nacional sendo um dos criadores da Faculdade de Direito de Minas Gerais, onde lecionou direito criminal. Afonso Arinos viveu seus últimos anos de vida na Europa e faleceu em 19 de fevereiro de 1916 durante uma viagem sua para Barcelona. É tio de outro importante político brasileiro o homônimo sobrinho Afonso Arinos de Melo Franco (falecido em 1990).

Membro da Academia Brasileira das Letras. Rua 12/ Terreno 19 e 20

Membro da Academia Brasileira das Letras. Rua 12/ Terreno 19 e 20

Antonio Giuseppe Agú (O FUNDADOR DA CIDADE DE OSASCO. Rua 16 / Terreno 15)

Antonio Giuseppe Agú, ou apenas Antonio Agú como é mais conhecido, foi um imigrante italiano e importante empreendedor no Estado de São Paulo. Fabricante de tijolos, sua indústria foi fundamental não só para a fundação como também para o desenvolvimento da cidade vizinha à capital paulista. Para escoar sua produção de tijolos, Agú trabalhou pela construção de uma estação ferroviária junto a sua fábrica de tijolos. Ao ser inaugurada 1895 os administradores da ferrovia queriam batizá-la com seu nome. Ele recusou a honraria e sugeriu o nome de Osasco, sua cidade natal na Itália, o que foi aceito. Nascia assim a Estação de Osasco e a seu redor a cidade que também leva seu nome. Antonio Agú faleceria em 25 de janeiro de 1909, causando bastante comoção na vila que fundou . O cortejo de seu corpo desde Osasco até o Cemitério da Consolação em São Paulo foi acompanhado à época por centenas de pessoas, entre funcionários, parentes, amigos e admiradores.

O FUNDADOR DA CIDADE DE OSASCO. Rua 16 / Terreno 15

O FUNDADOR DA CIDADE DE OSASCO. Rua 16 / Terreno 15

 

Joaquim Roberto de Azevedo Marques (O BANDEIRANTE DO JORNALISMO PAULISTA Rua 11 / Terreno 39)

É impossível falar da imprensa paulista sem mencionar o nome de Joaquim Roberto de Azevedo Marques. Bastante ignorado por aqueles que visitam o Cemitério da Consolação, Azevedo Marques é o homem que estabeleceu a pedra fundamental do jornalismo em São Paulo ao lançar em uma então pequena cidade que era a capital paulista, seu primeiro jornal diário, o Correio Paulistano.  Décadas depois de sua morte, em 1922, seu jornal seria o único periódico paulista a apoiar e acreditar na célebre Semana de Arte Moderna. Azevedo Marques faleceu em 26 de setembro de 1892 aos 68 anos. O jornal Correio Paulistano permaneceu em circulação até o ano de 1964.

 

O BANDEIRANTE DO JORNALISMO PAULISTA Rua 11 / Terreno 39

O BANDEIRANTE DO JORNALISMO PAULISTA Rua 11 / Terreno 39

 

Antônio Gonçalves da Silva (UM ESPÍRITA E ABOLICIONISTA Rua 11 / Terreno 37)

Se há uma figura na sociedade paulistana que mereceria muito mais destaque, esta figura é Antônio Gonçalves da Silva, a popular Batuíra. Nascido em Portugal em 1839, foi um homem de incrível personalidade. Depois de passar pelo Rio de Janeiro e por Campinas, fixou residência em São Paulo, onde adquiriu diversos lotes de terra na região onde hoje está a rua Lavapés. Figura incrível foi entregador de jornais (Correio Paulistano), fabricante de charutos e dono de teatro. Mas destacou-se principalmente pela figura bondosa que era ao acolher escravos fugidos em sua propriedade, o qual só os deixava partir se alforriados pelos seus senhores, e também por sua notável dedicação ao espiritismo. Amigo de Azevedo Marques, conseguiu com ele a experiência necessária para em 1890 lançar o jornal Verdade e Luz, a primeira publicação dedicada ao espiritismo em São Paulo, e que na época conseguiu a façanha de ter uma tiragem de 5 mil exemplares. No final da vida abriu mão de todos os seus bens para os mais pobres e sua casa abrigou a instituição beneficente “Verdade e Luz”. Posteriormente em sua homenagem a rua onde morava foi batizada de Rua Espírita, que existe até os dias hoje. Batuíra viria a falecer em 22 de janeiro de 1909 e curiosamente está sepultado bem próximo de seu grande amigo em vida, Joaquim Roberto de Azevedo Marques.

 

UM ESPÍRITA E ABOLICIONISTA Rua 11 / Terreno 37

UM ESPÍRITA E ABOLICIONISTA Rua 11 / Terreno 37

George C. Eck (UM NOVA-IORQUINO SEPULTADO EM SÃO PAULO. Quadra 58 / Terreno 23)

Muitos que passeiam por este cemitério deparam-se com este túmulo de um cidadão americano e se perguntam: Por que morreu tão jovem ? Por que ele foi enterrado aqui? A resposta não é fácil, e levamos alguns dias para pesquisar e poder responder. George C. Eck nasceu na cidade de Nova Iorque em 1873, ele veio para o Brasil logo na virada do século 20 para trabalhar como taquígrafo na empresa canadense Light and Power Company. Ele seguiu trabalhando entre os colegas brasileiros até o ano de 1912, quando adoeceu rapidamente e acabou vindo a falecer em 21 de abril. Seu obtido foi lavrado pelo famoso Dr. Walter Seng que atestou morte por uma doença chamada noma (espécie de gangrena que hoje é comum apenas em locais muito pobres e insalubres). Morto e sem qualquer familiar por aqui, os custos de enviar o cadáver para os Estados Unidos eram muito altos. Então seus colegas de trabalho alertaram a família nos Estados Unidos e optaram por um sepultamento aqui mesmo, em São Paulo. Eles compraram este túmulo no Cemitério da Consolação e ali o sepultaram. Por isso está escrito na lápide o termo “Erected by His Friends” (erguido por seus amigos).

 

UM NOVA-IORQUINO SEPULTADO EM SÃO PAULO. Quadra 58 / Terreno 23

UM NOVA-IORQUINO SEPULTADO EM SÃO PAULO. Quadra 58 / Terreno 23

 Jules Martin (O AUTOR DO VIADUTO DO CHÁ. Quadra 22 / Túmulo 12)

Este túmulo discreto geralmente passa despercebido pelo turista, mas é ai que está sepultado um francês que tornou-se brasileiro e projetou a obra que foi crucial para o desenvolvimento da região central de São Paulo: O Viaduto do Chá. Nascido na França em 1832, Jules Martin veio ao Brasil para trabalhar e só chegou em São Paulo depois de passar algum tempo em Sorocaba. Cartógrafo, desenhista, litógrafo e construtor, foi dele a primeira oficina litográfica da Província de São Paulo, a Litografia Imperial. Em meados dos anos 1870, surgiu a discussão sobre criar um viaduto sobre as plantações de chá pois para ir do centro antigo para o centro novo, a população precisava dar uma grande volta por entre um lamaçal e um denso matagal. Para erguer este novo viaduto era necessário demolir o casarão do Barão e Baronesa de Tatuí, cuja localização impedia a obra. Em 1877 ele projetou o viaduto, mas a Baronesa fez de tudo para impedir a demolição de sua residência e isto atrasou o viaduto, que só seria demolido por completo 12 anos depois em 1889. A inauguração do Viaduto do Chá, em 6 de novembro de 1892, foi imprescindível para o desenvolvimento da Cidade de São Paulo. Jules Martin viria a falecer em 18 de setembro de 1906, não sem antes mudar os rumos da urbanização da capital paulista.

O AUTOR DO VIADUTO DO CHÁ (Quadra 22 / Túmulo 12)

O AUTOR DO VIADUTO DO CHÁ (Quadra 22 / Túmulo 12)

 

Maria Zélia Street (A GAROTINHA QUE DÁ NOME A UMA VILA HISTÓRICA. Quadra 48/ Terreno 38)

Maria Zélia Street, é filha do famoso industrial brasileiro Jorge Street. Ela faleceu em 12 de setembro de 1915 com apenas 16 anos, quando a famosa vila operária de seu pai ainda estava sendo construída. Ao ser inaugurado, em 1917, a vila foi batizada com seu nome como forma de homenagem nascendo então a hoje famosa Vila Maria Zélia. O nome da vila quase desapareceu por completo da história na década de 20. Em 1924, Jorge Street mergulhado em dívidas vendeu a fábrica e a vila para a família Scarpa que imediatamente mudou o nome do local para Vila Scarpa. O nome da vila só voltaria ao original em 1929, quando o Grupo Guinle tomou posse do local e decidiu restituir o nome original.

A GAROTINHA QUE DÁ NOME A UMA VILA HISTÓRICA. Quadra 48/ Terreno 38

A GAROTINHA QUE DÁ NOME A UMA VILA HISTÓRICA. Quadra 48/ Terreno 38

 

Rodolfo Pirani (O FUNDADOR DAS LOJAS PIRANI. Rua 4)

Já ouviu falar no bairro Jardim Rodolfo Pirani ? A homenagem é realmente merecida quando descobrimos a história deste homem que trouxe tantos empregos em São Paulo. Quando falamos de Lojas Pirani as pessoas de mais idade lembram-se da famosa rede lojas que existia aqui na Cidade Paulista. Rodolfo Pirani nasceu em Osimo, Itália, em 3 de julho de 1891 e chegou ao Brasil com sua família com apenas cinco anos de idade. Com talento desde muito jovem para os negócios, inaugurou as Casas Pirani famosa rede de lojas que logo cresceu rapidamente. Era considerado um patrão muito preocupado com o bem estar de seus funcionários e com as condições de trabalho. Suas lojas Pirani foram um sucesso e até hoje a marca está presente na memória de muitos paulistanos. Faleceu em 8 de maio de 1964, mas não sem deixar sua marca na história dos estabelecimentos comerciais de São Paulo.

 

O FUNDADOR DAS LOJAS PIRANI. Rua 4

O FUNDADOR DAS LOJAS PIRANI. Rua 4

Sabbado D`Angelo (O GRANDE EMPRESÁRIO DA INDÚSTRIA DE CIGARROS. Rua 37 / Terreno 22)

Sepultado neste belíssimo mausoléu, está o poderoso empresário Sabbado D`Angelo. Era dele a Sudan, uma das maiores indústrias brasileiras de tabaco. Em uma época que não haviam as restrições e proibições que são impostas ao fumo, seus cigarros eram dos mais queridos e consumidos na São Paulo antiga. Algumas de suas marcas eram sinônimas de enorme sucesso de vendas, como o “Diamante Negro”, que homenageava o então jogador Leônidas. Hoje as embalagens do cigarro “Diamante Negro”, bem como outras produzidas pela Sudan são disputadas a tapa por colecionadores. O Comendador Sabbado D`Angelo faleceu na década de 30.

O GRANDE EMPRESÁRIO DA INDÚSTRIA DE CIGARROS. Rua 37 / Terreno 22

O GRANDE EMPRESÁRIO DA INDÚSTRIA DE CIGARROS. Rua 37 / Terreno 22

O Google oferece a opção de Street View dentro do Cemitério da Consolação, confira clicando Aqui.

Texto: São Paulo Antiga

 

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Marco A Martinho

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